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Viagem

TEXTO E FOTOS Malu Neves

Bem-vindo a Tailândia

Se fosse possível resumir minha jornada na Tailândia em poucas palavras, não teria dúvidas: mai pen rai.

Se fosse possível resumir minha jornada na Tailândia em poucas palavras, não teria dúvidas: mai pen rai. Uma das expressões mais intrínsecas ao comportamento e mindset do tailandês, significa “não se preocupe”, “deixa estar”.

Começo por Bangcoc. Há uma sensação que prevalece quando se chega à capital: serenidade, mas com intensidade. A cidade tem um certo caos, em virtude do grande número de habitantes – população de mais de 8 milhões –, trânsito superintenso, o dia todo. Mas todos parecem viver um ritmo mais pacífico, que não se assemelha àquela sensação frenética que grandes capitais do mundo carregam. Em Bangcoc é diferente. O ritmo, mesmo intenso, não é transmitido na fala e no olhar das pessoas. O tailandês vive dia após dia, não há aquele costume ocidental de se planejar com tanta antecedência, de pensar “além do normal” no dia de amanhã.

As prioridades dos tailandeses são comer bem, dormir bem, cuidar da família e preservá-la. Achei tudo isso muito curioso. Comportamento em total sintonia com a constante saudação com a que o povo costuma praticar em situações sociais cotidianas, geralmente para dizer “olá”, “bom dia” ou para se despedir – com as mãos unidas próximas ao queixo, o cumprimento sawasdee soa como uma melodia doce, ao mesmo tempo que os tailandeses movem a cabeça para baixo, em delicada e elegante reverência. Sawasdee vem acompanhado de krab ao final, se a pessoa é do gênero masculino, e ka, se é feminino. Nada mais é que o cumprimento ocidental de aperto de mão, mas de uma forma mais cortês e com mais reverência, na minha opinião, e que inspira a devolução de sorriso genuíno. Sem contar a gentileza quando lhe presenteiam com a coroa de arranjo de flores Phuang Malai, símbolo de boas-vindas e também usada como oferenda nos templos. Pura delicadeza.

Por todos os lugares  onde passei, eu me alimentei com alegria de sabor, aroma, delicadeza e técnica

Ao mesmo tempo que Bangcoc preserva raízes milenares em costumes religiosos e culturais, perceptíveis em todos os cantos, é inevitável um  caminho de constante crescimento socioeconômico que coloca a cidade próxima ou no mesmo nível de desenvolvimento de uma metrópole. Nos centros comerciais da cidade, vemos altos investimentos que permitem ao cidadão explorar, cada vez mais, uma vida indoor. O complexo Iconsiam, inaugurado há pouco mais de um ano às margens do rio Chao Phraya, é mais do que um centro de consumo; está lá para vender um sonho, com suas mais de 500 lojas e cem restaurantes impressionantes, além de mercado flutuante, performances, galerias de arte e uma vista magnífica não só das águas, como também de sua arquitetura interior e exterior.

Mesmo para aqueles viajantes não entusiastas por consumo, vale a pena visitar esses  shoppings, ao menos para admirar sua arquitetura contemporânea bem aos padrões asiáticos ou se deliciar com as inúmeras opções de comida em seus belos food courts. Aliás, come-se muito bem por todo o país. Quando viajamos para um local de cultura muito distinta e, distante de nosso hábito cotidiano, é comum ter altos e baixos quando diz respeito à alimentação, ora encontrando refeições memoráveis, ora razoáveis. Mas não na Tailândia. Por todos os lugares onde passei, eu me alimentei com alegria de sabor, aroma, delicadeza e técnica. É impressionante como num único prato de culinária thai conseguimos degustar os quatro sabores perfeitamente bem. Com o adicional da pimenta, claro. Tudo é apimentado, mesmo que a gente peça sem. Pela primeira vez provei a famosa e deliciosa green papaya salad – que de fato é preparada com a fruta, mas não é doce, porque é feita quando ela ainda está verde. É um dos pratos mais comuns da cozinha tailandesa e contém açúcar de palma, amendoim torrado, tomate, vagem e temperos (podendo ou não conter proteína animal, como camarão). A primeira que provei – e talvez por isso tenha me marcado tanto, que difícil será outra bater seu sabor – foi no Sala Thip, elegante e despretensioso restaurante do clássico e charmoso hotel Shangri-la. Além dos fatores “primor e cuidado na elaboração dos pratos”, ao longo do jantar somos surpreendidos por uma performance artística chamada Khon, que retrata os contos épicos de "Ramakien", a versão tailandesa do poema épico sânscrito "Ramayana". Lindo e instigante.

Sendo devoto ou não, é inevitável não se contagiar com uma energia espiritual fortíssima que nos acompanha dentro e fora dos mais de 40 mil templos que existem no país

Em um país cuja população é 95% budista, um dos aspectos mais particulares da cultura tailandesa é a religião. Sendo devoto ou não, é inevitável não se contagiar com uma energia espiritual fortíssima que nos acompanha dentro e fora dos mais de 40 mil templos que existem no país. São tantos que jamais caberá conhecê-los numa única vida. O meu maior desejo era visitar o Wat Arun – Temple of Dawn, localizado ao lado oeste do rio Chao Phraya. Sua espiral no topo atinge 70 metros de altura, lindamente decorada com pequeninas e coloridas porcelanas chinesas e vidros, formando mosaicos que não cansamos de admirar. Se posso dar uma dica valiosa, vá conhecer logo cedo e dedique ao menos uma hora para explorar toda sua área. Mas retorne no fim de tarde, em direção oposta ao templo e descendo via ferry-boat no píer Tha Tian, às margens do rio, dirigindo-se ao rooftop do restaurante Supanniga Eating Room: peça uma taça de sauvignon blanc e espere as luzes do Wat Arun acenderem quando escurece. É mágico!

Cenas da Chinatown, em Bangcoc, e detalhe da comida de rua

Mas seria leviano da minha parte apenas exaltar o Wat Arun, mesmo porque não se vai à Tailândia para visitar apenas um templo. Dentre os imperdíveis, como o Grande Templo e  o Wat Pho, vale muito a pena conhecer o templo Sri Mahamariamman, dedicado às divindades do hinduísmo, que me arrebatou o olhar pela infinidade de detalhes e cores em sua fachada; tão impressionante quanto achei o Bang Pa-In, antigo palácio de verão dos reis tailandeses, a 60 quilômetros ao norte de Bangcoc. Na verdade, quem vai a esse extravagante templo certamente pode andar um pouco mais em direção à cidade histórica de Ayutthaya, também antiga capital do país. É de tirar o fôlego, me arrepia toda vez que recordo das cores e desenhos deixados pelas ruínas dos templos – a cidade foi destruída pelo Império Birmanês no século 18 –, e a arquitetura recebeu influências do Camboja (visível nas estruturas das torres dos templos em forma de “espigas de milho”, chamadas phrang), Sri Lanka (nas estupas, que são as torres de formato semelhante a sinos) e Índia (com as imagens dos budas). Toda essa riqueza arquitetônica se espalha por um sítio arqueológico tombado pela Unesco, que, por sua vez, não permite qualquer tipo de intervenção humana, como restauro, preservando sua integridade original. 

Detalhe das ruínas em Ayutthaya; interior do templo Wat Arun com o sitting buddha; e, abaixo, vista da parte do complexo que abriga o Bang Pa-In, antigo palácio de verão dos reis da Tailândia

Bangcoc é um destino por si só digno de aproveitar individual e exclusivamente por semanas (por dias, sim, é possível, mas jamais serão suficientes). Mas não deixaria de aproveitar para visitar alguma das ilhas paradisíacas que o país oferece. São mais de 1.400, e tamanho é o crescimento do turismo que algumas já operam com um fluxo enorme de estrangeiros, como as famosas Phuket (do trágico tsunami em 2004), Phi Phi ou Samet. Prefiro aquelas menos invadidas, como Ko Lanta, que dizem assíduos frequentadores que a visitam há muito tempo, se tornará uma das mais buscadas em pouquíssimos anos. O acesso é feito pela junção aéreo (Bangcoc até Krabi), barco e carro. Tudo nessa ilha é perfeito. A cor e a temperatura do mar; o pôr do sol; a abundância da natureza; as sensações que nos carregam para um oásis fora da realidade. Feliz de quem vive essa realidade a trabalho! Opções não faltam para todos os gostos e bolsos. Mas sem dúvida o Pimalai Resort se destaca: é de uma beleza estonteante e, ao mesmo tempo, respeitosa e integrada à natureza. O antídoto perfeito para amar e espantar estresse e mau humor, assim como toda a Tailândia é.

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