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Arte

Texto Felipe Melo

Navegar é Preciso

Sócio-fundador da Art Ahead, Felipe Melo faz uma reflexão sobre arte contemporânea e seus caminhos

Explorar o mundo da arte contemporânea pode abrir uma série de experiências e portas! Mas para o espectador que tem interesse pelo assunto, todas as possibilidades e o número imenso de artistas e estilos podem ser complicadores. “Onde devo me concentrar?”, “o que é arte?”. Essas são questões frequentemente postas nos primeiros contatos com esse mundo.

Os questionamentos são válidos. Os movimentos artísticos do período denominado como Pós-Guerra” foram responsáveis por uma grande expansão dos conceitos de materialização de obras de arte. O conceitualismo americano, a arte povera italiana, o construtivismo, grandes vertentes que acabaram por propor novos suportes. A pintura e a escultura dificilmente deixarão de existir, mas hoje dividem espaço com vídeos, instalações, instruções, sons...

O conceito de arte se expande e cada vez mais se vincula às pesquisas e motivações dos artistas. Uma obra de arte consistente tem grande ligação com a forma como o artista interage com a sociedade e como o microcosmo em que está inserido reage ao trabalho. Com a evolução da tecnologia e o frenético aumento do volume de informações que movimentam o mundo, essas dinâmicas sociais foram profundamente alteradas e, naturalmente, impactaram as artes visuais.


Arte?

Todos esses fatores acabam por ser absorvidos também pelo mercado de arte, que encontra formas de se adaptar. Há algum tempo, uma galeria em Nova York fez uma exposição completamente vazia. Ao caminhar pelo cubo branco e silencioso o espectador só poderia ser atingido no olfato. A obra consistia na reprodução perfeita do cheiro de notas de cem dólares. O artista levou anos trabalhando com equipes multidisciplinares para desenvolver a fragrância – que foi comercializada em edição limitada – numa pesquisa que levanta questionamentos sobre a sociedade materialista e os conflitos entre arte e consumo.

Uma obra de arte consistente tem grande ligação com a forma como o artista interage com a sociedade e como o microcosmo em que está inserido reage ao trabalho

Está posto o desafio. Muitas pessoas enfrentam grandes dificuldades ao ser confrontadas com inovações. Quem interagia com o trabalho de Picasso na primeira década do século 20 dificilmente conseguiria projetar a importância que sua obra teria e seu impacto em todo o rumo das artes visuais. Os diversos rompimentos estéticos e técnicos propostos pelo artista provaram-se profundamente vanguardistas. Picasso entra aqui apenas como um exemplo, pois inúmeros artistas da sua geração foram parte das mesmas evoluções. 


Como navegar por esses caminhos tão diversos?

Arte toma tempo. Exige dedicação. Mas uma forma de maximizar seu tempo é procurando grupos e profissionais que se dedicam a essa exploração mais profunda. A arte que se faz hoje, a produção fresca dos artistas, ainda está na sombra. Depende de estudo, de compreensão e observação mais ampla.

Por isso, a tendência de quem observa e tenta interagir com esses trabalhos de arte pode cair na armadilha de se restringir ao confronto estético. Essa é uma primeira interação, mas para transformar essa “atração” em “relacionamento”, o espectador deverá atravessar o interesse estético e se deixar levar pela sinergia de seus interesses com as pesquisas que embasam a obra de arte que está sendo observada.

Seu tempo será mais bem investido se você se deixar guiar em exposições institucionais ou privadas de artistas e obras. Quando os objetivos dos artistas se fizerem mais claros para você, sua interação enxergará outras formas de beleza e questionamentos e será transformada em engajamento (ou, até mesmo, numa repulsa consciente).

Uma série de profissionais movimentam as estruturas das artes visuais. Curadores, advisors, pesquisadores e acadêmicos. Há uma gama enorme de possibilidades que podem ser acessadas para que seu tempo seja investido de forma consistente e seja revertido em conhecimento mais sólido.


E uma coleção de arte?

Decidir formar uma coleção de arte contemporânea pode ser uma consequência natural de quem se permite viver as interações discutidas neste artigo. Uma coleção de arte bem estruturada vai além de aquisições.

Ela suporta os artistas, fomenta pesquisas e ajuda a difundir ideias. A arte é uma poderosa forma de comunicação, e sua estrutura depende também de colecionadores para ser formada. Com o suporte de profissionais sérios, sua coleção pode criar uma narrativa também dos seus interesses e se transformar num legado. Um diálogo bem estabelecido de artistas brasileiros com artistas internacionais mostrará as linhas que conectam (e que distanciam) as sociedades, por exemplo. 

Ter a chance de conhecer mais profundamente o que se produz em artes plásticas permite uma leitura de diferentes perspectivas das interações sociais.

Colecionar arte também proporcionará uma ampliação do seu campo de relacionamentos. Aquela tendência natural de circular nos mesmos campos sociais poderá ser modificada ao se frequentar círculos diferentes, que incluirão profissionais que têm uma perspectiva diversa de trabalho e que agregam discussões sobre assuntos possivelmente pouco usuais em sua rotina. 

As possibilidades realmente são enormes, mas fazer um corte e decidir um caminho para interagir com a arte é possível e traz ótimos resultados.

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