Atualizações sobre o COVID-19.Saiba mais
Al Dente

Rodrigo Campos pergunta para Teresa Cristina

A sambista carioca Teresa Cristina fala sobre alguns de seus ídolos, a diferença entre compor e interpretar e as mudanças no samba ao longo das décadas

um

RC Você tem um disco todo dedicado ao repertório do Paulinho da Viola. Como foi mergulhar em sua obra

TC Gravar uma homenagem ao Paulinho no meu primeiro trabalho como cantora modificou meu jeito de encarar as canções. A maneira como lidei com a obra de um cara tão grandioso foi quase in-consequente, por não ter noção, naquele momento, do que aquilo representava. Não me assustei durante o processo, e sim depois que o trabalho já estava pronto, porque não tinha mais como mexerem nada. Posso dizer que tenho o Paulinho em um lugar muito especial no meu imaginário de fã, admiro muito o trabalho dele, e as músicas dele estão sempre à minha volta.

dois

RC Você conseguiria destacar um tema recorrente ou caminho filosófico mais evidente nos sambas do Paulinho?

TC Alguns temas aparecem volta e meia.Um deles, que acho muito “paulinesco”, é o reverso da paixão. É o contrário do encantamento, do primeiro amor e do primeiro olhar. Ele usou isso em verso, e inclusive tem uma música com o nome“Reverso da Paixão”. Assim como a vida, porque o Paulinho é um grande cronista, sempre fazendo uma metáfora da vida como um jogo, inclusive a comparando com uma partida de xadrez. Esse jogo de xadrez aparece em algumas composições dele de maneira muito bonita. E, por incrível que pareça, ele também fala muito sobre a morte. Acho que é por causa da admiração que ele tinha por Nelson Cavaquinho, que tinha a morte como um tema recorrente. E o Paulinho também fala muito de timidez, de despreparo diante de algum sentimento.

três

RC Tive o prazer de dividir o palco com você em duas ocasiões, numa delas em uma homenagem ao compositor paulista Geraldo Filme. Você já conhecia seus sambas àquela altura? Algum daqueles sambas ficou no seu imaginário?

TC Esse show cantando Geraldo Filme ficou no meu imaginário. Ele é subaproveitado, deveria ser mais conhecido. Acho ele gigante e estelar comoCartola, Candeia, Nelson Cavaquinho, Padeirinho e Batatinha. É incrível como as pessoas falam do samba paulista e, de certa forma, esquecem, não têm um carinho pela obra do Geraldo Filme, seja por ignorância ou preconceito. O que eu vejo é que o samba paulista não seria o mesmo sem o Geraldo Filme. Ele tinha uma melancolia, um timbre de voz e letras geniais. Da obra dele, em geral, destaco aquele discoO Canto dos Escravos, que é muito lindo. Infelizmente, é a única obra dele em plataformas como Spotify, como se ele não tivesse feito mais nada. E uma música que me marca muito dele é “Garoto de Pobre”.Todas as vezes que ouço, mexe muito comigo. É muito atual, bonita, com uma melodia muito diferente

quatro

RC Você acha que o samba ainda tem lugar na vanguarda, ainda é passível de transformação, ou se transformou num gênero canônico, mais ligado à tradição?

TC Eu acho que o samba sempre vai ter lugar na vanguarda, porque o samba é vanguarda. O samba é o pelotão da frente, o primeiro que toma por-rada, o primeiro que morre. É a primeira voz e o primeiro grito, sempre. O que pode estar nesse lugar canônico, mais tradicional, é o fato de o samba ter chegado à perfeição em vários momentos. Acho que o samba só chegou até2019 por ser vanguarda. Por estar na linha de frente. Não consigo acreditarem um samba que não seja vanguarda.

cinco

RC Você gosta do samba vindo do Cacique de Ramos, com o Fundo de Quintal, com instrumentos mais ligados ao pagode hoje, como repique de mão, tam-tame banjo? Considera o samba do Cacique uma revolução estética dentro do samba?

TC Eu gosto muito do Fundo de Quintal.Acho que revolucionou o samba.Já vi cantores mais novos dizendo que mudaram o samba, mas a verdade é que o Fundo de Quintal foi o último nesse posto de mudança, e isso pré anos1990, quando houve essa levada para pagode. Mas a mudança de estrutura, musicalidade e instrumentação veio com eles nos anos 1980, quando se revolucionou tudo. O Fundo de Quintal nasceu com Jorge Aragão, Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz influenciando uma turma enorme, são pessoas por quem tenho muito carinho. Se não existisse o Fundo de Quintal, que samba estaria sendo feito hoje? Talvez o samba dos anos 1990 não teria acontecido pré-anos.

seis

RC Mudando um pouco de assunto, como Roberto Carlos se encaixa na sua biografia?

TC As composições do Roberto e do Erasmo entraram na minha discografia porque estavam presentes na minha biografia. Eu aprendi a falar comas canções de ambos, isso com 3, 4 anos. Minha mãe sempre arrumou a casa ouvindo as músicas do Roberto, e eu sempre tentava cantar com ela. Quando gravei o disco do Roberto, foi muito natural. Não tive dificuldade em cantar aquelas músicas porque elas já estavam dentro de mim há anos. Subir em um palco e interpretar aquelas canções foi a realização de um sonho.

sete

RC Além de intérprete, você é compositora. Você sente diferença ao cantar músicas suas em relação a músicas de outros compositores?

TC Eu não sinto muita diferença.Às vezes, os versos que eu escrevi trazem um pouco de timidez. A música fala muito de nós, e para nós interna-mente. Sabemos o que queremos dizer com cada verso, o que cada figura que escolhemos para falar tem como função e intenção. Tem essa pequena diferença para interpretar, que é contar um segredo cifrado para o público.Tudo que escolho para cantar são coisas em que me vejo também

Este website utiliza cookies para melhorar a experiência do utilizador e para analisar o desempenho e o tráfego no nosso website. Nós também compartilhamos informações sobre o seu uso do nosso site com nossos parceiros de mídia social, publicidade e análise.