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Teresa Cristina Pergunta para Rodrigo Campos

Grande nome do samba carioca contemporâneo, Teresa Cristina discute a trajetória de Rodrigo Campos, suas parcerias e inovações

um

TC Rodrigo, seu álbum São Mateus Não É um Lugar Tão Longe mexe muito comigo. Quanto tempo você levou para ter esse olhar tão delicado e precioso de um lugar tão próximo de você?

RC Fico muito feliz que esse álbum te toque, Teresa. Olha, comecei a compor aos 12 e fiz muitas músicas até os 20 e poucos. Acho que foi um período de desenvolvimento de uma pretensa linguagem, tanto que não gravei nenhuma música dessa época. A partir dos 23, 24 anos, quando saí de São Mateus e senti o choque da mudança da periferia pro centro, comecei a ter um olhar sobre o bairro e o tempo em que vivi lá. Começaram a me voltar histórias e sensações, numa mistura de saudade e acerto de contas. Escrevi cerca de 30 canções, das quais 14 entraram no disco.

dois

TC O que o grupo Passo Torto acrescentou à sua carreira artística?

RC O Passo Torto me abriu espaço pra escrever letras de maneiras diferentes, me valendo de diversos personagens, à medida que os parceiros me mandavam músicas que evocavam outras sensações. A vocação experimental do grupo também permitiu que várias letras cruzassem certo limite antes respeitado. Como músico também fui influenciado pelo grupo, em que pude desenvolver uma linguagem como guitarrista e usar o cavaquinho de modos diferentes, inclusive com a inserção de pedais de guitarra.

três

TC Muitas vezes somos questionados sobre nossas “influências musicais”. Sempre achei perigosa essa pergunta, mas você consegue perceber em sua obra a influência direta de algum artista?

RC Acho que quando você escuta uma canção que te impacta, já existe influência, pois acredito que haja, na construção do imaginário do compositor, gerações de outros compositores, como se herdássemos esse potencial da tradição da canção brasileira e tivéssemos que, além de nos apropriar dela, impor alguma curva ou variação que nos identifique. Então me sinto influenciado por dezenas de canções que formaram meu imaginário.

quatro

TC Olhando sua discografia, vejo um compositor inquieto e extremamente observador. Você foi da zona leste paulistana para a Bahia e para o Japão. Na minha cabeça de ouvinte, essas viagens foram necessárias para a realização de 9 Sambas. O que o samba lhe ensinou? Consegue descrever?

RC Você tem razão sobre esse percurso até o 9 Sambas. Precisei caminhar bastante pra me permitir fazer um disco que considero mais de gênero. Isso, além da inquietação estilística, por respeito e reverência com o samba, que me formou como músico e compositor, me deu as primeiras indicações estéticas e filosóficas, a noção de comunidade, origem e pertencimento. E acho que 9 Sambas indica esse caminho de volta, esse desejo de reconexão e autoafirmação em relação ao samba.

cinco

TC Na construção de uma música, o que chega primeiro para você: letra ou melodia?

RC Geralmente fico tocando violão, procurando algum caminho harmônico ou riff, então faço juntas, melodia e letra. Quando faço a melodia antes, não consigo colocar letra, acabo mandando para algum parceiro.

seis

TC Suas composições na voz de Elza Soares, Juçara Marçal, Luísa Maita – para citar algumas – ganham muita força. Já compôs alguma canção pensando em um intérprete específico?

RC Não fiz ainda. Geralmente, quando mando pra alguém, recorro a algo que já tenho pronto. Também acabo compondo muito em função dos discos que faço, então fico consumido por um tema específico. Mas tenho vontade ainda de fazer, me sinto mais aberto a isso, depois de já ter feito alguns discos.

sete

TC Ainda falando sobre suas colaborações, como foi criar e manter essa rede de artistas que sempre trabalham juntos, como a Ná Ozzetti e o Thiago França?

RC Acho que essa tem sido a maior riqueza da minha trajetória artística, poder criar com pessoas que admiro e que se tornaram meus amigos. Creio que começou com uma atração mútua pelos trabalhos uns dos outros, foi virando amizade e logo levamos isso aos discos e palcos. Essas colaborações já têm cerca de dez anos e acabaram criando um acento musical muito próprio, chegando ao trabalho de artistas como Elza Soares, Criolo e Jards Macalé.

oito

TC Durante toda sua trajetória como artista, você divulgou suas músicas na internet sempre de maneira gratuita. Como foi tomar essa atitude? Você acha que esse é o futuro para novos artistas?

RC Quando comecei a gravar, a gente vinha de um declínio da indústria, tudo estava em transformação. Inclusive, acho que artistas como eu só existem por causa das ferramentas que a internet criou. Mas a intenção era acessar o máximo de pessoas possível. O CD já estava em queda e não tinha a velocidade do download. Criamos algum público, num primeiro momento, muito pela disponibilização gratuita dos discos. Agora já estamos num outro momento, as pessoas não baixam mais discos, ouvem pelo streaming, nas plataformas digitais ou pelo YouTube, SoundCloud e outros. A indústria está se reorganizando, mas foi possível, nesse ínterim, criar uma cena independente gigantesca. Meus discos continuam no meu site pra download, mas não faz mais tanto sentido quanto antes, é muito simples colocar os discos nas plataformas de streaming e também muito mais cômodo pro ouvinte. A volta do vinil também criou um mercado de colecionadores, e algumas pessoas, quando pensam numa mídia, preferem adquirir um objeto mais sofisticado, como um LP, às vezes até como souvenir. Mas não acho que essa maneira seja um modelo perene, pois o streaming ainda tem muitos problemas, como ficha técnica e direitos autorais, por exemplo. As coisas continuam em transformação.

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