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Memória

TEXTO Luiz Horta | RETRATO Raquel Cunha/Folhapress

Elegia

O cronista Luiz Horta presta homenagem à sua grande amiga, a jornalista Nina Horta, que nos deixou em outubro com uma rica herança na gastronomia

Em 1988, Nina escreveu um artigo sobre o livro Brideshead Revisited, de Evelyn Waugh, em que o personagem nostálgico volta à mansão inglesa da família aristocrática que admirava, depois da guerra. Eu gostava muito do livro, e achava curiosos os raros textos (ainda não existia a coluna semanal que veio depois) dessa misteriosa Nina, que tinha meu sobrenome. Escrevi uma carta a ela aos cuidados do jornal. E esqueci do assunto.

Recebi sua resposta: "Que bom que gostou, quando vier a São Paulo, está convidado para nos conhecermos". Inventei um pretexto e vim (morava em Belo Horizonte). Foi como encontrar uma amiga da vida toda. Passamos a tarde falando dos ingleses excêntricos, das irmãs Mitford, do grupo de Bloomsbury (o de Virginia Woolf) de que ela gostava tanto quanto eu. Uma conversa que continuou até outubro recente.

Uma pessoa muito engraçada, com senso de humor por vezes ferino, com ironia bem equilibrada que ela nunca deixou chegar ao sarcasmo e menos ainda à amargura

Nina sabia tudo, sobre quase todos os assuntos. Ficava feliz quando não sabia algo, desculpa para comprar livros, estudar. Foi assim com os vinhos, queria aprender, mas não queria sair de casa, nem eu. Inventou o curso por telefone. Na hora marcada, ela e eu tínhamos o mesmo vinho na frente e eu tentava que ela se soltasse. O primeiro (e praticamente último, o curso durou três aulas) era um Montsant chamado Laurona. Eu insistia: "Tem cheiro de quê?". "De gaveta", respondia. "E gaveta é feita de quê?", ela não dava o olfato a torcer: “Ah, tem de aço inoxidável, de plástico...”. Nunca falou a palavra madeira. Até o ano passado, em uma degustação de Porto que fizemos na casa dela, ela contou esse caso e continuou dizendo que não sentia nada no aroma.

Uma pena que, por sua timidez, só tenha aparecido para o público o lado Dona Benta, a senhora cozinheira de mancheia, com o lindo cabelo branco terminado em coque; e deixado disponível só para os mais próximos o lado Edwina Monsoon, uma daquelas Absolutely Fabulous, uma pessoa muito engraçada, com senso de humor por vezes ferino, com ironia bem equilibrada que ela nunca deixou chegar ao sarcasmo e menos ainda à amargura.

Deixei a memória pinçar casos, uma Nina dos bastidores, melhor lembrança. A casa totalmente singular, uma casa forrada de livros. Silvio, o marido, chamava o avanço interminável de prateleiras e livros de "the birds", em referência àquele filme de Hitchcock em que pássaros começam a ocupar, aos poucos, uma aldeia. Os livros estavam em degraus da escada, quartos, banheiro, cozinha, empilhados sobre as mesas, no escritório em que quase não se achava onde sentar.

Era considerada só cronista. Mas várias vezes a vi jornalista. Mandava um e-mail: "Passo aí às tantas horas para irmos fazer uma entrevista". E eu me via, de surpresa, diante de Joël Robuchon, por exemplo. A transformação era impressionante, tirava bloco da sua maleta/bolsa e caneta. E fazia perguntas pertinentes, longamente pensadas, repórter autoformada; o entrevistado se surpreendia positivamente, alguém que sabia do que falava, seus perfis e entrevistas são lições dessa arte de captar a essência do outro.

Comidas? Comia de tudo, era uma provadora de curiosidade infinita. Realmente gulosa testemunhei poucas vezes. Com uma caixa de marrons-glacês franceses, o que simplificou muito os presentes, não precisava quebrar a cabeça. E uma vez, a caminho de um terceiro compromisso no dia, atacou uma baguete que eu tinha comprado, colocando uma barra de chocolate dentro.

Adorava o sítio de Paraty, insistia para que eu fosse conhecer. Dia e hora marcados, mala pronta, vieram me buscar. Foi chegarem e o carro deu uns solavancos estranhos, ruídos assustadores e pifou. Vieram mecânicos, diagnóstico: uma semana para consertar. Eu fazendo cara de desolado e as malas sendo transferidas para um táxi, que ela parou ali na rua mesmo. "Avenida Nossa Senhora de Copacabana", disse, com naturalidade. "Mas, isso é no Rio, minha senhora", retrucou o taxista. "Pois é, é para lá que vamos." Ele olhou bem aquela dama que tinha autoridade de rainha, ligou para a mulher avisando e fomos. Foi a situação mais "siga aquele carro" que já vivi.

Nos anos recentes lia um livro por dia. E do hospital pediu que mandasse algo para ela. Responsabilidade gigante. Uma amizade que nasceu pelo amor aos livros, eu sabia que este seria o último que dividiríamos. Achei um do escritor americano Harold Brodkey sobre Veneza, My Venice. Um pouco errado, um livro outonal em que o autor se despede de sua cidade favorita.

Esperei o veredito, gostou, e depois soube que tinha dito um dia, consciente de que tal vida maravilhosa estava terminando: "Vou sentir muita saudade de vocês". Espero que aí da Veneza invisível onde merece estar, saiba que nós estamos também bastante saudosos. Vamos relê-la até sossegar a tristeza.​

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